Existe um número no seu contrato de cartão que vale mais do que a taxa de juros anunciada, e quase ninguém pede para ver: o CET, o Custo Efetivo Total. A taxa de juros diz quanto o banco cobra pelo dinheiro; o CET diz quanto a operação inteira vai custar, com imposto e tarifas dentro. A diferença entre os dois números não é decorativa — e a diferença entre a taxa mensal e a taxa anual é ainda maior, porque juros de cartão são compostos e crescem sobre si mesmos. Neste guia explicamos o que o CET inclui, mostramos a conta que transforma 20% ao mês em quase 800% ao ano e ancoramos tudo em taxas realmente publicadas por cartões que analisamos.
O que o CET inclui além da taxa de juros
O Custo Efetivo Total é a soma de tudo o que você paga para usar dinheiro emprestado, expressa como uma taxa única. Informá-lo antes da contratação é obrigação da instituição financeira, e ele deve constar do contrato e da fatura. O CET reúne quatro famílias de custo.
- Os juros propriamente ditos — a taxa do rotativo, do parcelamento da fatura, do saque ou do Pix no crédito, conforme a operação.
- Os tributos — no crédito, essencialmente o IOF, que tem uma parte fixa e uma parte diária.
- As tarifas — a tarifa de saque, por exemplo, ou qualquer cobrança vinculada à operação.
- Os encargos de inadimplência, quando existem — multa e juros de mora entram na conta de quem atrasa.
A consequência prática é que duas operações com a mesma taxa de juros podem ter CETs muito diferentes. Uma delas pode carregar tarifa fixa e a outra não; uma pode durar 30 dias e a outra 12 meses de IOF diário. Comparar propostas pela taxa mensal, como quase todo mundo faz, é comparar uma parte do preço.
Por que 20% ao mês viram quase 800% ao ano
Juros de cartão são compostos: o que não foi pago em um mês entra na base de cálculo do mês seguinte. Por isso não se multiplica a taxa mensal por 12. A fórmula correta é esta:
taxa ao ano = ((1 + taxa ao mês ÷ 100) elevado a 12 − 1) × 100
Multiplicar 20% por 12 daria 240% ao ano. A conta correta dá 791,61%. A diferença — mais de 550 pontos percentuais — é exatamente o efeito dos juros sobre juros, e é por isso que a taxa mensal, sozinha, é um número que engana. A tabela abaixo converte taxas reais, publicadas nas fichas de cartões que analisamos, para a base anual.
| Taxa ao mês | Equivalente ao ano | Onde esta taxa aparece |
|---|---|---|
| 0,99% | 12,55% | Piso do parcelamento de fatura do Nubank Roxinho |
| 9,69% | 203,45% | Parcelamento de fatura: média do Itaú no Banco Central (ago/2026), citada na ficha do Cartão Azul Platinum |
| 2,75% | 38,48% | Piso do rotativo do Nubank Roxinho |
| 9,75% | 205,39% | Saque com cartão de crédito no Nubank Roxinho |
| 19,75% | 769,57% | Teto do parcelamento de fatura do Nubank Roxinho |
| 19,99% | 790,72% | Teto do rotativo do Nubank Roxinho |
| 20,00% | 791,61% | Referência de cálculo nosso, para leitura da fórmula |
Repare no salto entre as linhas. Sair de 2,75% para 19,99% ao mês não multiplica o custo por sete: multiplica por mais de vinte na base anual. E repare também que o mesmo cartão pode cobrar qualquer ponto dessa faixa — o Nubank publica intervalos, não uma taxa única, e o valor atribuído a cada cliente sai da análise individual e aparece na simulação dentro do aplicativo. Quem pede o cartão sem olhar esse número está assinando um preço em branco. Os detalhes estão na nossa análise completa do Nubank Mastercard Roxinho.
O IOF: o pedaço do CET que dá para calcular sozinho
Em qualquer operação de crédito no Brasil incide IOF em duas camadas: 0,38% fixo sobre o valor da operação, cobrado uma única vez, e 0,0082% ao dia sobre o saldo devedor, limitado a 365 dias. É a única parte do CET que você consegue calcular antes de contratar, porque os percentuais são os mesmos para todo mundo.
Em um saldo de R$ 1.000 rolado por 30 dias, a conta é: R$ 3,80 da parte fixa mais R$ 2,46 da parte diária, ou R$ 6,26 de imposto — antes de um centavo de juros. Se a dívida atravessar o ano inteiro, a parte diária chega ao teto de 2,993% do saldo, somada aos 0,38% iniciais.
Parece pouco perto dos juros, e em dívidas longas é mesmo. Mas em operações curtas o IOF pesa proporcionalmente muito mais, porque a parte fixa de 0,38% é cobrada por inteiro tenha a dívida durado um dia ou trezentos. É o tipo de detalhe que só aparece quando você olha o CET, e nunca quando olha a taxa mensal.
Em compras internacionais a regra é outra: o IOF é de 3,5% sobre o valor convertido, e a ele se soma o spread cambial do emissor, que no Roxinho é de 4% sobre o dólar PTAX Venda. Não é juro, não entra no CET de nenhum financiamento, mas é custo real — e igualmente invisível na fatura.
Tarifa fixa: o item que estoura o CET em valores pequenos
Nenhum componente distorce tanto o CET quanto uma tarifa fixa aplicada a um valor pequeno. O exemplo mais claro que temos em ficha é o saque com cartão de crédito do Cartão Azul Platinum, do Itaú: R$ 12,00 por saque no país, conforme o registro de tarifas do Banco Itaucard no Banco Central, mais os juros da operação. Veja o que essa tarifa representa, sozinha, conforme o valor sacado.
| Valor sacado | Tarifa de R$ 12,00 equivale a | Peso no CET |
|---|---|---|
| R$ 100 | 12% do valor | Mais de quatro meses de juros no piso do rotativo do Nubank Roxinho (2,75% ao mês) |
| R$ 300 | 4% do valor | Tarifa equivale a mais de um mês de juros, antes dos juros |
| R$ 500 | 2,4% do valor | Peso relevante, mas já diluído |
| R$ 1.000 | 1,2% do valor | Peso menor; os juros passam a dominar |
A lição é contraintuitiva: a mesma tarifa é muito mais cara em saques pequenos. Quem saca R$ 100 paga, só de tarifa, o equivalente a mais de quatro meses de juros no piso do rotativo mais barato que temos em ficha — e ainda vai pagar os juros por cima. O CET dessa operação é grotesco, e nenhuma taxa mensal anunciada revela isso.
Onde o CET aparece — e os cartões que não o publicam
O CET deve constar do contrato, da proposta e da fatura, e a simulação apresentada antes de você confirmar um parcelamento ou um saque tem de mostrá-lo. Esse é o momento de olhar. Na prática, porém, os dois cartões citados aqui ilustram um problema de transparência que atravessa o mercado.
O Nubank publica as faixas de juros do rotativo e do parcelamento, mas não divulga o CET anual de forma agregada: informa que ele é detalhado na fatura de cada cliente. Já o Itaú vai menos longe no Azul Platinum — não divulga em página aberta a taxa do rotativo nem a do parcelamento da fatura, e o CET também não é publicado por cartão: a página de atendimento do banco diz que a taxa consta da fatura de cada cliente. A referência verificável é a média da instituição na estatística do Banco Central, que não é a taxa do seu contrato. Qualquer número que você encontre por aí atribuído especificamente a esse cartão não tem origem oficial.
Daí a recomendação mais útil deste guia: peça a taxa e o CET por escrito antes de contratar, e não depois. Você tem direito a conhecê-los, e é o único momento em que a informação ainda muda a sua decisão. Depois de a dívida existir, saber o preço serve apenas para doer.
Resumo: cinco conclusões práticas
- A taxa de juros não é o preço. O preço é o CET, que soma juros, IOF, tarifas e encargos em um número só. Compare propostas por ele.
- Nunca multiplique a taxa mensal por 12. Use a fórmula dos juros compostos: 20% ao mês são 791,61% ao ano, não 240%.
- O IOF você calcula sozinho: 0,38% fixo mais 0,0082% ao dia, até 365 dias. Em R$ 1.000 por 30 dias, são R$ 6,26 antes de qualquer juro.
- Desconfie de tarifas fixas em valores pequenos. R$ 21,90 de tarifa são 21,9% de um saque de R$ 100 — e os juros ainda vêm por cima.
- Exija o número por escrito antes de assinar. Vários emissores publicam apenas faixas, ou nem isso, e a taxa individual só aparece na simulação. Se o CET não for mostrado, não confirme a operação.
Análise atualizada em setembro de 2026 com base nas condições publicadas pelo emissor e nas regras vigentes do Conselho Monetário Nacional.
