“Sem anuidade” é a frase mais repetida do marketing de cartões no Brasil e uma das menos precisas. Ela cobre pelo menos três arranjos comerciais diferentes: o cartão que simplesmente não cobra, o cartão que cobra e devolve a cobrança quando você gasta o suficiente, e o cartão que não cobra anuidade mas põe o custo em outro lugar da relação. A diferença entre eles não aparece na propaganda — aparece na fatura do mês em que você viajou, ficou doente ou gastou menos do que o habitual. Este guia explica o mecanismo de cada arranjo e mostra, com cartões reais analisados aqui no site, como descobrir em qual deles você está antes de assinar.

As três famílias de “anuidade zero”

Comece pelo vocabulário, porque os bancos usam as mesmas palavras para coisas diferentes.

Anuidade zero incondicional. O produto não tem anuidade no contrato. Não há meta, não há contrapartida, não há “a partir do segundo ano”. Se você guardar o cartão na gaveta por um ano, ele não gera cobrança.

Anuidade zerada por uso. O contrato prevê anuidade, e o banco a dispensa enquanto você cumprir uma régua — um valor de gasto por mês ou por fatura, um saldo investido, uma chave Pix cadastrada. A anuidade não desapareceu: está suspensa. No mês em que a régua não é cumprida, ela volta.

Anuidade zero com o custo em outro lugar. A anuidade é mesmo zero, mas existe uma tarifa de emissão, um serviço opcional mensal ou um dinheiro seu que fica imobilizado para o cartão funcionar. O custo fixo é real; só não se chama anuidade.

Nenhuma das três é boa ou má por natureza. A segunda pode ser excelente para quem gasta muito e péssima para quem gasta pouco. A questão é saber em qual você está.

Zero de verdade: como reconhecer uma isenção incondicional

O sinal mais confiável é o emissor dizer, por escrito, que não há condição — e nomear as condições que não existem. O Santander Free é o exemplo mais explícito entre os bancos grandes: a página oficial o descreve como “100% gratuito, sem asteriscos”, sem gasto mínimo por fatura e sem chave Pix para manter a isenção. O Nubank Mastercard (Roxinho) vai pelo mesmo caminho e estende a gratuidade aos cartões adicionais, o que permite equipar a família sem multiplicar custo fixo. O Banco Pan Mastercard e o C6 Bank Mastercard também registram anuidade de R$ 0 sem exigência de gasto mínimo.

O sinal de alerta é o oposto: uma isenção que só vale para o primeiro ano, ou que depende de uma campanha com prazo de contratação. E há um caso intermediário que engana muita gente boa — o mesmo nome comercial em duas versões diferentes. No Itaú Visa Platinum, a versão sem programa de pontos tem anuidade zero, enquanto a versão com pontos cobra anuidade caso o cliente não atinja um gasto mínimo — e nem o valor da anuidade nem o do gasto mínimo são publicados. Se a sua proposta mencionar pontos, pergunte em qual das duas você está.

Zerada por uso: a régua, o custo cheio e a conta anual

Quando existe uma régua, a pergunta certa não é “quanto custa a anuidade”, e sim “quanto eu preciso fazer passar pelo cartão em um ano para não pagar nada”. A tabela abaixo traduz as réguas de cartões reais do site nessa conta.

CartãoCusto cheioRégua de isenção publicadaGasto anual para cumprir a régua
Nubank UltravioletaR$ 89 por mês, R$ 1.068 por anoAcima de R$ 8.000 por mês no crédito, ou R$ 50 mil investidos ou guardados no bancoR$ 96.000 pela via do gasto
Bradesco Visa Signature (campanha expirada)R$ 768 por ano, parcelável em 12x de R$ 64R$ 2.000 em transações em 90 dias no 1º ano; gasto médio de R$ 2.000 por mês depoisR$ 24.000
Santander SX, para quem ainda tem o cartão antigoValor não publicado pelo emissorR$ 100 em compras por fatura, ou CPF e celular mantidos como chaves Pix no bancoR$ 1.200, ou R$ 0 pela via das chaves Pix
Itaú Visa Platinum, versão com pontosValor não publicado pelo emissorGasto mínimo não publicado pelo emissorNão calculável

Três lições saem da tabela. A primeira é que a régua só faz sentido comparada ao seu gasto real dos últimos seis meses, não ao gasto que você pretende ter. No Nubank Ultravioleta, quem gasta R$ 4.000 por mês recebe R$ 600 de cashback no ano e paga R$ 1.068 de mensalidade — um custo líquido de R$ 468 por ano para carregar um cartão que, no papel, “pode ser gratuito”.

A segunda é que campanha tem data. A isenção por gasto do Bradesco Visa Signature que circula na internet valia para cartões contratados entre 1º de outubro e 31 de dezembro de 2024; em 2026 não há edição em vigor publicada. Uma régua que expirou não é uma régua: é uma anuidade de R$ 768 por ano.

A terceira é que existem réguas que não custam nada. Manter CPF e celular como chaves Pix no Santander, no caso do cartão antigo, zera a anuidade sem exigir consumo — e falha no dia em que você leva as chaves para outro banco.

Anuidade zero com o custo em outro lugar

A terceira família é a mais silenciosa, porque tecnicamente ninguém mentiu: a anuidade é zero mesmo. O custo fixo só mudou de nome.

CartãoAnuidadeOnde o custo apareceQuanto
C6 Bank MastercardR$ 0, sem gasto mínimoC6 Tag de pedágio, opcionalR$ 25 de emissão mais R$ 5 por mês, por tag: R$ 85 no primeiro ano
Efí Bank Cartão Pré-Pago VisaSem anuidade e sem mensalidadeTarifa de emissão do cartão, cobrada uma vezR$ 25,00 na tabela de tarifas e R$ 19 na página do produto — o emissor publica os dois
PagBank MastercardR$ 0, sem condicionantes de gastoDinheiro imobilizado para ativar o limite garantidoMínimo de R$ 300 reservados em conta ou aplicados em CDB

O caso do C6 Bank Mastercard é didático: R$ 85 no primeiro ano por uma tag de pedágio recolocam, num cartão vendido como sem custo fixo, exatamente um custo fixo. É opcional, e por isso não é armadilha — mas entra na conta de quem aderir. Já no PagBank Mastercard o custo não é uma tarifa, é custo de oportunidade: os R$ 300 reservados sustentam o limite e não podem ser usados para outra coisa enquanto isso.

E o Efí Bank Cartão Pré-Pago Visa serve de lembrete sobre um vício comum: quando o emissor publica dois preços diferentes para a mesma tarifa, o consumidor só descobre qual vale na hora de pagar. Pergunte antes.

O que perguntar antes de assinar

  1. Existe anuidade no contrato? Não pergunte se é gratuito; pergunte se há valor contratado e se ele é dispensado por alguma condição.
  2. Qual é a régua, exatamente? Valor, periodicidade e o que conta como transação válida. Compra parcelada conta pelo total ou pela parcela do mês? Pix no crédito conta? Saque conta?
  3. A isenção vale para sempre ou só para o primeiro ano? E existe campanha em vigor hoje, com data de contratação?
  4. O que acontece no mês em que a régua falha? Cobra a anuidade inteira, uma parcela mensal, e a partir de qual fatura?
  5. Os adicionais são gratuitos? Em alguns cartões o gasto do adicional conta para a régua do titular; em outros, o adicional tem anuidade própria.
  6. Há alguma tarifa fixa fora da anuidade? Emissão, tag, pacote de serviços, saldo mínimo a manter.

Guarde as respostas por um canal que gere registro. Se o que foi prometido não aparecer na fatura, esse registro é a sua base para reclamar.

Resumo: o que levar deste guia

  • “Sem anuidade” é um guarda-chuva com três arranjos por baixo. Só o primeiro é gratuito em qualquer cenário; o segundo depende do seu comportamento e o terceiro cobra por outro nome.
  • Compare a régua com o seu gasto real, não com o pretendido. No Nubank Ultravioleta, R$ 4.000 por mês significam R$ 468 de custo líquido por ano; acima de R$ 8.000, a mensalidade some.
  • Isenção com prazo de contratação não é isenção. Confirme se a campanha está em vigor na data em que você pedir o cartão.
  • Anuidade zero não é custo zero. Tarifa de emissão, serviço mensal opcional e dinheiro imobilizado são custo fixo com outro nome.
  • Onde o emissor não publica o número, não presuma que é zero. Ausência de dado não é isenção — peça o valor por escrito antes de assinar.

Análise atualizada em setembro de 2026 com base nas condições publicadas pelo emissor e nas regras vigentes do Conselho Monetário Nacional.