Pagar o mínimo, atrasar a fatura e ficar negativado são três coisas diferentes, com custos diferentes e consequências diferentes. Muita gente trata as três como um bloco só — “me enrolei com o cartão” — e perde a chance de agir no ponto em que a decisão ainda é barata. Este texto separa os três estágios, mostra em reais o que cada um cobra e usa as taxas publicadas pelos emissores dos cartões que já analisamos para que você consiga fazer a conta com o seu.

Pagar o mínimo não é um desconto: é um empréstimo automático

A fatura do cartão traz dois valores: o total e o mínimo. Quando você paga qualquer quantia entre esses dois, o saldo que sobra não é perdoado nem adiado sem custo — ele é automaticamente financiado. Essa modalidade se chama crédito rotativo, e é a mais cara do crédito brasileiro: mais caro que cheque especial, que empréstimo pessoal e que consignado.

Repare no que acontece de mais importante: pagar o mínimo é uma contratação. Você não assina nada, não recebe uma proposta e não escolhe a taxa — mas contrata um empréstimo do mesmo jeito. E, a partir daquele momento, todo o prazo sem juros da fatura desaparece: as compras novas do ciclo seguinte já entram num saldo que está rendendo juros.

Um detalhe de leitura que confunde: as taxas de cartão são anunciadas ao mês, mas incidem sobre o saldo já acrescido dos juros anteriores. Para converter em taxa anual não se multiplica por 12, aplica-se juros compostos: ao ano = ((1 + taxa ao mês ÷ 100)12 − 1) × 100. É por isso que uma taxa de dois dígitos ao mês vira três dígitos ao ano.

Quanto custa, em reais, pagar só o mínimo

A tabela abaixo pega um saldo de R$ 1.000 deixado no rotativo por 30 dias e aplica a taxa publicada por cada emissor. O IOF é o mesmo em todos os casos: 0,38% fixos sobre o valor financiado mais 0,0082% ao dia, o que em 30 dias dá 0,626% — R$ 6,26. As duas últimas colunas separam justamente os dois cenários deste texto: pagar o mínimo na data certa e não pagar nada na data certa.

CartãoRotativo ao mêsJuros sobre R$ 1.000Pagou o mínimo, em diaNão pagou (com multa e mora publicadas)
Méliuz Mastercard Platinumaté 12,75%R$ 127,50R$ 133,76R$ 153,76
Banco Pan Mastercard13,43%R$ 134,30R$ 140,56R$ 170,56
Itaú Visa Platinum13,87%R$ 138,70R$ 144,96R$ 174,96
Bradesco Visa Signatureaté 14,99%R$ 149,90R$ 156,16R$ 186,16
C6 Bank Mastercard16,49%R$ 164,90R$ 171,16R$ 191,16
Nubank Mastercard (Roxinho)até 19,99%R$ 199,90R$ 206,16R$ 236,16
PicPay Card Mastercard Goldnão publicadonão calculávelnão calculávelnão calculável

Três leituras importam mais do que os números isolados. A primeira: em todos os casos calculáveis, um único mês de rotativo sobre R$ 1.000 custa entre R$ 133 e R$ 206 — mais do que a anuidade anual de vários desses cartões. A segunda: a diferença entre o cartão mais barato e o mais caro da lista, num só mês, é de cerca de R$ 72 sobre os mesmos R$ 1.000. A terceira, e a mais incômoda: há cartões cuja taxa simplesmente não é publicada. No PicPay Card Gold, no Santander Free e no BNB Visa Classic Internacional, o rotativo, o parcelamento da fatura e o CET só aparecem na proposta ou na fatura do cliente. Não é que sejam gratuitos: é que não dá para comparar antes de contratar.

Uma ressalva que vale para toda a tabela: onde o emissor publica “até”, aquele número é teto, não valor fixo. A taxa efetivamente aplicada sai da análise de crédito e aparece na sua fatura, junto com o CET. É esse par de números — a sua taxa e o seu CET — que manda, não a média do mercado.

Atrasar é outra coisa: o que a multa e a mora acrescentam

Quem paga o mínimo na data certa está no rotativo, mas está em dia. Quem não paga nada até o vencimento acumula duas cobranças extras, previstas em contrato e informadas pela maior parte dos emissores: a multa, de 2% sobre o valor em atraso, e os juros de mora, de 1% ao mês ou fração. Sobre R$ 1.000, são R$ 20 de multa e R$ 10 de mora em um mês — R$ 30 que se somam aos juros do rotativo e ao IOF, e é essa a diferença entre as duas últimas colunas da tabela.

Atenção à expressão “ou fração”, que aparece nos contratos: um dia de atraso pode contar como mês inteiro para efeito de mora. Não é o mesmo que juros proporcionais ao dia.

E há assimetria entre emissores no que é publicado. Banco Pan, Itaú, Nubank e Bradesco divulgam multa e mora. Méliuz e C6 Bank publicam a multa de 2% mas não uma mora separada. No PicPay Card Gold, a ficha descreve o atraso como juros do rotativo mais encargos moratórios e possível bloqueio do cartão, sem quantificar. Vale reter esse último item: o atraso não custa só dinheiro, pode custar o acesso ao limite no meio do mês.

O teto de 100% existe — e não é um alívio

Há uma proteção real em vigor. Pela Resolução CMN 5.112/2023, os juros e encargos cobrados no rotativo e no parcelamento da fatura não podem superar o valor original da dívida. Quem deve R$ 1.000 não pode ver a conta passar de R$ 2.000 no total.

O que essa regra faz é impedir que a dívida cresça sem fim. O que ela não faz é reduzir a taxa mensal anunciada — e é aí que muita gente se engana. Às taxas da tabela acima, o teto é alcançado rápido: perto de 19,99% ao mês, uma dívida chega ao dobro em cerca de cinco meses. Terminar com o dobro do que se devia não é proteção, é o limite do estrago.

Há ainda uma regra de prazo que funciona a seu favor e quase ninguém conhece: o saldo só pode ficar no rotativo até o vencimento da fatura seguinte. Depois disso, o emissor é obrigado a oferecer o parcelamento. Não espere por esse prazo — peça antes, porque o parcelamento é quase sempre muito mais barato. No Banco Pan são 4,50% ao mês (69,59% ao ano) contra 13,43% do rotativo; no C6 Bank, 5,54% ao mês (91,01% ao ano) contra 16,49%; no Bradesco, o parcelamento pelo emissor vai a até 4,99% ao mês (79,38% ao ano) contra até 14,99% do rotativo. Não é dívida barata, mas é um terço do preço — e tem prestação previsível.

A negativação e o custo que aparece depois

Se o atraso persiste, o emissor registra a dívida nos birôs de crédito. Os prazos e o procedimento de aviso variam conforme o contrato e a instituição, e não vamos fixar aqui um número que os emissores não publicam de forma uniforme — pergunte ao seu.

O custo da negativação, no entanto, é fácil de descrever, porque está escrito nas fichas de todos os cartões que analisamos. Praticamente nenhum emissor publica renda mínima; todos condicionam a aprovação à análise de crédito, e essa análise olha score, histórico de pagamentos e registros no SPC e no Serasa. É o que dizem, com palavras próprias, as fichas do Nubank, do C6 Bank, do Itaú, do PicPay e do Méliuz. Ou seja: a negativação não cobra uma taxa — ela fecha portas. Por alguns anos, cada pedido de cartão, financiamento ou aluguel passa por um filtro que agora tem uma marca sua.

Resta um caminho de volta, e ele também está nas fichas. Existem produtos desenhados para quem está fora do sistema de crédito: cartões de limite garantido, em que você reserva ou investe um valor e ele passa a lastrear o limite, dispensando a análise tradicional. É o modelo do PagBank Mastercard, com reserva mínima de R$ 300, e do PicPay Card Gold, cujo Cofrinho libera o cartão virtual a partir de R$ 50. Nos dois casos o crédito é, em boa medida, o seu próprio dinheiro — e é exatamente isso que permite voltar a construir histórico com faturas pagas em dia. Um cartão pré-pago resolve o pagamento do dia a dia, mas não constrói histórico algum, porque não há crédito concedido a registrar.

Resumo

  • Pagar o mínimo contrata um empréstimo às taxas mais altas do mercado. Sobre R$ 1.000 em 30 dias, isso custou de R$ 133 a R$ 206 nos cartões com taxa publicada — mais do que a anuidade anual de vários deles.
  • Atrasar acrescenta multa de 2% e mora de 1% ao mês onde elas são publicadas: R$ 30 sobre R$ 1.000, além dos juros e do IOF. E pode bloquear o cartão.
  • Peça o parcelamento da fatura antes de esperar a oferta do banco. Onde as duas taxas são publicadas, o parcelamento custa cerca de um terço do rotativo e tem prestação fixa.
  • O teto de 100% da Resolução CMN 5.112/2023 limita o estrago, não o preço. Às taxas de teto do mercado, a dívida dobra em poucos meses.
  • Antes de contratar, exija a sua taxa e o seu CET por escrito. Em vários cartões esses números não são publicados — e um crédito cujo preço você não pode comparar é um crédito que não deveria ser usado.

Análise atualizada em setembro de 2026 com base nas condições publicadas pelo emissor e nas regras vigentes do Conselho Monetário Nacional.