O Cartão de Crédito BPI Now é o único cartão de crédito do BPI que não cobra nada por ano — e o único cuja ficha de informação normalizada diz, com estas palavras, que os juros começam a contar no dia da compra. O nosso veredito, numa frase: é um cartão barato de ter e caríssimo de usar, feito para quem já decidiu pagar a prestações e não para quem quer liquidar a fatura no fim do mês.

O que é este cartão

Convém começar por quem emite, porque no plástico está o nome do BPI mas o contrato é de outra entidade. A entidade emitente e mutuante é a CaixaBank Payments & Consumer, E.F.C. E.P., S.A., que opera em Portugal através da sua sucursal e está registada no Banco de Portugal sob o código IF 5564. O Banco BPI, S.A. entra como agente comercial e intermediário de crédito vinculado, registado sob o código IF 10. É a mesma arquitetura dos outros cartões de crédito do banco, e a razão pela qual o preçário e a ficha normalizada falam de «Emitente» e não de «BPI».

Feita a apresentação, o dado decisivo. A Ficha de Informação Normalizada em Matéria de Crédito aos Consumidores deste cartão, edição de setembro de 2026, classifica-o no ponto 1.2 assim: «Cartão de crédito com constante cobrança de juros remuneratórios (sem free-float). Contrato de crédito ao consumo de duração indeterminada, sob a forma de cartão de crédito, que permite a utilização do crédito com lugar à cobrança de juros, independentemente da modalidade de reembolso acordada.»

A expressão que importa é «independentemente da modalidade de reembolso acordada». Não há carência. Não existe o mecanismo, familiar a qualquer utilizador de cartão de crédito, de comprar durante o mês, receber o extrato e pagar a totalidade sem juros. Cada compra vence juros desde o dia em que é feita, e pagar tudo de uma vez apenas encurta o período em que os juros correm — não os elimina. Para comparação direta: a ficha normalizada do BPI Enjoy, do BPI Classic e do BPI Gold+ descreve exatamente o contrário, «um período até 50 dias corridos sem que haja lugar à cobrança de juros».

Esta é a informação mais importante do produto e não está escrita na página oficial. A página vende o cartão por dois argumentos — não tem anuidade e a prestação é fixa — e nenhum deles é falso. Mas a ausência de free float é a contrapartida dos dois, e quem lê apenas a página não fica a saber.

Custos reais

A comissão de disponibilização é de 0 €. Não é uma isenção no primeiro ano, não depende de volume de compras, não depende de ter conta pacote: é zero, todos os anos. O painel de comissões da página oficial confirma-o e a ficha normalizada fecha a questão em dois pontos: «3.1 Valor total dos encargos € 0,00» e «3.2.3 Comissões de disponibilização de um cartão de crédito € 0,00». Não há também comissão de reembolso antecipado — a ficha diz «Não aplicável» —, o que significa que amortizar a dívida antes do tempo, no todo ou em parte, é gratuito e pode ser feito a qualquer momento pela aplicação, pelo homebanking, nos caixas Multibanco ou ao balcão.

Nas compras, o cartão é limpo dentro de casa. Comprar bens e serviços em Portugal e no resto do Espaço Económico Europeu não tem custos, com uma exceção que o BPI publica e que vale a pena guardar: uma taxa suplementar de 0,50 € por pagamento nos postos de abastecimento de combustível em Portugal. É meio euro por abastecimento: irrelevante numa ida ao supermercado, notório para quem paga combustível duas vezes por semana.

Fora do Espaço Económico Europeu a fatura muda de escala: uma comissão de serviço de 2,0% sobre o valor da transação mais uma taxa de conversão de moeda de 1%. São 3% somados, o que coloca o Now na média dos cartões de crédito portugueses e bem acima de qualquer conta de banco digital.

O adiantamento de numerário é o capítulo mais caro. A ficha normalizada indica uma taxa de 4,5% em caixa automático ou agência bancária e de 4,0% nos canais digitais, sempre acrescida de um valor fixo: 3,75 € em caixa automático dentro e fora do Espaço Económico Europeu, 4,25 € ao balcão e 3,00 € quando o dinheiro é transferido para a conta de depósitos à ordem. Acresce imposto do selo de 4%. Levantar 200 € num multibanco custa, portanto, 9 € de comissão antes de o dinheiro sair — e a partir desse momento vencem-se juros à taxa do cartão.

Há aqui uma divergência que registamos sem a resolver: a página do produto descreve a funcionalidade Cash Advance com «3,00€ + 4,50% sobre o valor do adiantamento», enquanto a ficha normalizada atribui 4,0% aos canais digitais e reserva os 4,5% ao caixa automático e à agência. São documentos do mesmo emitente a dizer coisas diferentes sobre a mesma operação. Seguimos a ficha normalizada, que é o documento regulado.

Nas restantes comissões: substituição do cartão 17,50 €, desvio do cartão para o balcão 5,00 €, produção urgente em 48 horas 35,00 €, emissão para não residentes 10,00 €, pedido de listagem de movimentos 15,00 € mais 0,06 € por dia de histórico, segunda via do extrato isenta.

Juros e o custo de não pagar tudo

A taxa anual nominal é de 14,81%, em regime fixo. A TAEG publicada é de 18,5%, calculada para uma utilização de crédito de 1.500 € reembolsada em 12 prestações iguais de capital acrescidas de juros. E é aqui que o cartão se define: 18,5% é exatamente o máximo legal em vigor para cartões de crédito, linhas de crédito, contas correntes bancárias e facilidades de descoberto no trimestre. Não existe, em Portugal, um cartão de crédito legalmente autorizado a cobrar mais do que este. O Now não cobra anuidade e cobra o teto legal do crédito.

O mecanismo de reembolso merece atenção, porque é aquele em que mais gente se engana. A prestação mensal é fixa e o titular escolhe-a, diz a ficha normalizada, num «intervalo de 5% a 50% do limite de crédito atribuído». A palavra decisiva é limite. A percentagem não incide sobre o saldo em dívida, incide sobre o crédito que lhe foi concedido. No BPI Enjoy, por contraste, as percentagens aplicam-se ao valor em dívida. Aqui, quem tenha um limite de 3.000 € e escolha 10% paga 300 € por mês — tenha gasto 300 € nesse mês ou tenha gasto 40 €. Em compensação, o valor é conhecido de antemão e o reembolso antecipado é gratuito, pelo que a prestação funciona como um mínimo e não como um teto.

Falhar o pagamento tem duas consequências cumulativas. A primeira são os juros de mora, à taxa nominal do cartão acrescida de três pontos percentuais ao ano: 17,81% com a TAN de 14,81%. A ficha é explícita quanto ao gatilho e ao método — basta não pagar o mínimo mensal até à data-limite do extrato para que todo o capital em dívida passe a vencer juros de mora, calculados diariamente e «sem necessidade de interpelação formal». A segunda é a comissão de recuperação de valores em dívida: 4% sobre cada prestação em atraso, com um mínimo de 12,00 € e um máximo de 150,00 €, mais imposto do selo. Numa prestação de 150 € em atraso, os 4% dariam 6 € — mas o mínimo de 12,00 € duplica esse valor.

Uma nota sobre a informação oficial, porque é a quarta incoerência que encontramos na documentação de cartões do BPI este mês. O painel «Taxas» da página do Now diz, no mesmo parágrafo: «Taxa Nominal Anual (TAN): 14,81%. Taxa Anual de Encargos Efetiva Global (TAEG): 18,5%, TAEG calculada para um limite de crédito de € 1.500, reembolsos de 12 prestações iguais de capital, acrescidas de juros à TAN de 10,5% e dos impostos legais em vigor.» São duas taxas nominais diferentes na mesma frase. A ficha normalizada confirma 14,81% nos dois lugares onde a menciona, pelo que o «10,5%» da página é erro de redação. A mesma página avisa que as taxas são «válidas até 30/09/2026».

Benefícios

O Now dá acesso ao Programa de Benefícios BPI, que devolve parte do valor gasto com o cartão diretamente na Conta BPI, em restaurantes, supermercados, viagens e outros parceiros. É um programa real e é o principal argumento de retorno do cartão, mas tem duas limitações que o leitor deve conhecer antes de contar com ele.

A primeira é o acesso. Não basta ter o cartão: é preciso ser titular de uma das contas pacote elegíveis do banco — Conta Valor BPI, Conta Valor BPI +, Conta BPI Premier, Conta BPI Premier +, Conta Valor BPI Funcionários Públicos e IPSS, Conta Valor Protocolo, Conta Valor Citizen ou Conta AGE Jovem —, ter mais de 18 anos, ser aderente à BPI App ou ao BPI Net e consentir o tratamento de dados e as comunicações por meios eletrónicos. A manutenção de uma conta pacote do BPI começa em 7,99 € por mês. Num cartão que não cobra anuidade, o benefício que o acompanha exige portanto uma despesa mensal recorrente que o próprio cartão não tem.

A segunda é que o BPI não publica a percentagem devolvida. Não há, na página do produto, uma tabela de parceiros com percentagens, nem um teto anual, nem um mínimo. Sem esse número, é impossível calcular se o programa compensa a conta pacote — e nós não o inventamos.

Fora do programa, há descontos na Hertz: 10% no aluguer de viaturas em Portugal, 10% no aluguer de Experiência Campers e 5% no aluguer no estrangeiro. Não há seguros: a ficha normalizada é taxativa no ponto 4.1, «Seguros exigidos: Não aplicável», e a página não anuncia nenhuma cobertura de viagem, de compras ou de proteção do cartão. Também não há acesso a salas VIP.

No uso diário, o cartão está completo: contactless, Google Pay, Apple Pay, MB WAY, 3D Secure, bloqueio e desbloqueio na aplicação e gestão integral pela BPI App, incluindo a alteração do limite de crédito. O plástico é produzido em PVC 100% reciclado com tintas ecológicas.

Requisitos

Para pedir o cartão é preciso ter 18 anos ou mais e ser cliente do BPI, e o pedido faz-se na BPI App, no BPI Net ou ao balcão. A contratação está sujeita a aprovação prévia das entidades envolvidas e à avaliação da solvabilidade, como em qualquer crédito ao consumo.

O BPI não publica rendimento mínimo para este cartão. Também não publica limite de crédito mínimo ou máximo: a ficha normalizada diz que o montante total de crédito é «estabelecido confidencialmente entre o Cliente e o Emitente e comunicado na carta que acompanha o envio do cartão», e esclarece que os 1.500 € que aparecem no cálculo da TAEG são apenas o exemplo representativo exigido por lei. Como o valor da prestação depende do limite atribuído, e o limite só é conhecido depois da aprovação, o titular não consegue saber de antemão quanto vai pagar por mês — apenas a percentagem que escolheu.

Pontos fortes e fracos

A favor: não custa nada ter o cartão, nem no primeiro ano nem nos seguintes, e a ficha normalizada confirma um valor total de encargos de 0,00 €; a prestação é fixa e conhecida à partida, o que dá previsibilidade a quem já sabe que vai pagar a prestações; comprar em Portugal e no resto do Espaço Económico Europeu não paga comissão; o reembolso antecipado, total ou parcial, é gratuito e imediato; e o cartão traz contactless, Google Pay, Apple Pay e MB WAY, com gestão completa na aplicação.

Contra: não há carência nenhuma, os juros começam na data da compra e a página do produto não o avisa; a TAEG de 18,5% é o teto legal do trimestre, o que faz deste o crédito mais caro que um cartão português pode cobrar; a prestação fixa calcula-se sobre o limite e não sobre o saldo, o que pode obrigar a pagar mais do que se gastou; levantar dinheiro custa 4,5% mais 3,75 € num caixa automático; não há seguros; e o Programa de Benefícios exige uma conta pacote a partir de 7,99 € por mês sem que a percentagem de devolução seja publicada.

Para quem vale a pena (e para quem não)

Faz sentido para quem já tomou a decisão de financiar compras a prestações e quer uma prestação fixa, previsível, sem pagar uma anuidade por cima dos juros. Nesse cenário, o Now é honesto: o dinheiro do banco custa 14,81% de TAN, o cartão em si não custa nada, e quem quiser acelerar o pagamento fá-lo sem penalização. Faz sentido também para quem tem já uma conta pacote do BPI por outras razões e passa a ter, com este cartão, um canal de devolução em conta sem aumentar custos fixos.

Não faz sentido — e aqui não há meias palavras — para quem quer um cartão de crédito para pagar a totalidade no fim do mês. Esse utilizador está a comparar o Now com cartões que lhe dão até 50 dias sem juros e vai escolher exatamente o produto que não tem nenhum. Dentro da própria gama do BPI, o Enjoy custa 14 € por ano e tem free float; o Classic custa 20 € e tem free float. Pagar 14 € para não pagar juros é melhor negócio do que pagar 0 € e pagar juros desde o primeiro dia, em qualquer cenário em que a fatura seja liquidada por inteiro.

Também não serve quem usa o cartão para levantar dinheiro, quem compra muito fora do Espaço Económico Europeu ou quem escolhe cartões pelos seguros de viagem — o Now não tem nenhum.

Como pedir

O pedido faz-se na BPI App, no BPI Net ou numa agência, e a página oficial do produto está em bancobpi.pt. Antes de assinar, peça a Ficha de Informação Normalizada em Matéria de Crédito aos Consumidores deste cartão e leia o ponto 1.2, o da categoria: é aí que está escrito, em linguagem regulada, que o cartão não tem período sem juros. Confirme depois o limite de crédito atribuído na carta que acompanha o cartão, porque é sobre esse valor — e não sobre o que gastar — que a sua prestação mensal vai ser calculada.

Conclusão editorial

O BPI Now é um cartão coerente com aquilo que é, desde que se saiba o que é. Damos-lhe 2,5 em 5. A pontuação premia a comissão de disponibilização de 0 €, a previsibilidade da prestação fixa, a gratuidade do reembolso antecipado, a ausência de comissões nas compras dentro do Espaço Económico Europeu e a integração completa com MB WAY e carteiras digitais. Penaliza a ausência total de free float num produto vendido como cartão de crédito comum, a TAEG no máximo legal, a prestação calculada sobre o limite e não sobre a dívida, o custo dos adiantamentos de numerário, a ausência de seguros e o facto de o benefício principal depender de uma conta paga cuja contrapartida não é publicada.

Dito de forma simples: se quer pagar a prestações, este cartão não lhe cobra nada por existir e isso tem valor real. Se quer pagar tudo ao fim do mês, escolha outro cartão do BPI — e pague os 14 € do Enjoy com gosto.

Análise atualizada em setembro de 2026 com base na página oficial do produto e na Ficha de Informação Normalizada em Matéria de Crédito aos Consumidores do Cartão de Crédito BPI Now, edição de setembro de 2026, publicadas pelo emitente.