Nenhum cartão é gratuito para quem o emite. Há plástico, há rede de pagamentos, há sistemas, há equipas de apoio e, nos cartões de crédito, há dinheiro emprestado e risco de não voltar. Quando um emissor anuncia «sem anuidade», não está a renunciar a essa receita: está a mudá-la de sítio. A pergunta útil, por isso, não é se o cartão tem custo fixo, mas onde é que o emissor vai buscar o que não cobra na comissão de disponibilização. São quatro sítios, e todos eles se podem calcular antes de assinar.

Sítio 1: a taxa de juro

É o mais caro de todos, e também o mais fácil de ignorar, porque só aparece a quem não paga o extrato na totalidade. O Bankintercard Gold é o exemplo mais limpo do modelo: comissão de disponibilização a zero, não só no primeiro ano mas de forma vitalícia, e uma TAEG de 18,5% — exatamente o máximo que o Banco de Portugal fixou para os cartões de crédito no 3.º trimestre de 2026, depois de descer o teto de 19%. A TAN é de 18,00%.

O Cartão de Crédito El Corte Inglés vai ainda mais longe no «zero»: todas as comissões de cartão previstas no preçário estão a 0,00 €, incluindo emissão e substituição. A TAN é mais baixa, 14,81%, mas a TAEG do exemplo representativo é a mesma: 18,5%, colada ao teto legal. E há um detalhe que agrava tudo — este cartão não tem free float, pelo que, fora do pagamento integral, os juros contam desde a data de cada compra.

A aritmética é simples de fazer de cabeça. Um mês de juro sobre um saldo em dívida é o saldo multiplicado pela TAN e dividido por doze.

Saldo em dívidaJuro de um mês à TAN de 18,00%Juro de doze meses, mantendo o saldo
300 €4,50 €54,00 €
500 €7,50 €90,00 €
1.000 €15,00 €180,00 €
2.000 €30,00 €360,00 €

Os valores são simplificados — não contam comissões nem a amortização do capital —, mas mostram a ordem de grandeza. Um único mês com 1.000 € por liquidar custa 15 €. É mais do que a anuidade anual de muitos cartões que cobram comissão de disponibilização. O cartão «gratuito» passou a caro na primeira vez que o extrato não foi pago por inteiro, e é exatamente aí que o modelo se financia.

Sítio 2: as comissões que só aparecem ao usar

O segundo sítio são as operações. A comissão de disponibilização é visível e comparável; as comissões de utilização estão espalhadas pelo preçário e quase ninguém as soma antes de aderir.

OperaçãoCartãoCusto publicado
Transação em moeda estrangeiraBankintercard Gold2%
Atraso de pagamentoBankintercard Gold12 €
Abertura do fracionamento «sem juros»El Corte InglésDe 2 € a 34 €, consoante o valor e o prazo
Recuperação de valores em dívidaEl Corte Inglés4% do vencido, mínimo 12 € e máximo 150 €, mais Imposto do Selo de 4%

Repare na linha do fracionamento. É vendido como «sem juros», e é verdade: não há juro. Mas há uma comissão de abertura que pode chegar a 34 €, e uma coisa não anula a outra — sem juros não é o mesmo que sem custo. Repare também na linha seguinte: numa prestação de 150 € em atraso, os 4% dariam 6 €, mas o mínimo de 12 € manda, e com o Imposto do Selo o titular paga 12,48 €. Quanto mais pequeno o incumprimento, mais pesada é a percentagem efetiva.

Há ainda uma categoria que merece ser dita como é: a informação em falta. O Bankintercard Gold não publica um valor confirmável para o adiantamento de numerário — as fontes divergem entre si e o montante tem de ser pedido no preçário em vigor. Um dado que não está publicado não é um dado a zero, e quem compara cartões não deve tratá-lo como tal.

Sítio 3: os benefícios com prazo e com teto

O terceiro sítio é mais subtil: não é uma cobrança, é uma devolução que parece maior do que é. O Bankintercard Gold oferece 3% de cashback em todas as compras — mas só durante os primeiros 12 meses, com o limite de 5 € por mês e 60 € no total. Como o teto é de 5 €, basta gastar 166,67 € num mês para o esgotar; a partir daí, a percentagem efetiva começa a cair, e no 13.º mês passa a zero, sem programa de pontos a substituí-la.

Compras no mêsCashback creditadoRetorno efetivo
100 €3,00 €3,00%
166,67 €5,00 €3,00%
500 €5,00 €1,00%
Qualquer valor, a partir do 13.º mês0 €0,00%

O El Corte Inglés usa outra variante da mesma ideia: dá 10% de desconto em livros durante todo o ano e uma hora de estacionamento, benefícios reais e permanentes — mas que só existem dentro da rede de lojas do grupo, porque o cartão não funciona em mais lado nenhum. A devolução está desenhada para trazer o titular de volta à loja, e é a loja que a paga. Nada disto é ilegítimo; é apenas outra forma de financiar um cartão que não cobra anuidade.

Sítio 4: quando o custo fixo é a opção mais honesta

Vale a pena olhar para o reverso. Há produtos que fazem o contrário: cobram um preço fixo claro e deixam as comissões variáveis baixas ou inexistentes. O Nickel Classic cobra 26 € por ano de comissão de manutenção de conta — 2,17 € por mês — e, para quem recebe por transferência, paga em euros e levanta até três vezes por mês, não cobra mais nada. Não há crédito, logo não há juros nem pagamento mínimo: o custo anual é aquele e acabou.

No extremo oposto do preço, mas com a mesma lógica, está o Revolut Metal, com uma mensalidade de 18,71 € — 224,52 € por ano — que inclui câmbios de moeda ilimitados sem comissão e levantamentos até 800 € por mês. Aqui não há dúvidas sobre onde está a receita do emissor: está escrita na primeira linha.

A comparação útil é esta: um preço fixo de 26 € ou de 224,52 € pode ser calculado antes de aderir e comparado com alternativas. Um «zero» acompanhado de uma TAEG de 18,5%, de 2% em moeda estrangeira e de uma comissão de mora de 12 € só se transforma em número depois de se saber como é que a pessoa vai realmente usar o cartão.

Como descobrir, em cinco minutos, onde está o custo

Antes de aderir a um cartão anunciado como sem anuidade, há quatro perguntas que resolvem quase tudo, e todas têm resposta escrita no preçário ou na Ficha de Informação Normalizada.

  1. Qual é a TAEG? Se estiver no teto do trimestre, o cartão está desenhado para quem não vai pagar tudo. Se pretende liquidar sempre o extrato por inteiro, a taxa não lhe toca; se não, é o número mais importante da página.
  2. Os juros contam desde quando? Um cartão sem free float cobra desde a data da compra, e não a partir do fim do período de graça. A diferença, no mesmo saldo, é de semanas de juro.
  3. Quais são as comissões de utilização? Moeda estrangeira, adiantamento de numerário, mora, abertura de fracionamento e recuperação de dívida. Some as que se aplicam ao seu caso e compare o total com a anuidade que julgava estar a poupar.
  4. O benefício tem prazo ou teto? Uma percentagem com teto mensal transforma-se num valor fixo; uma vantagem com prazo desaparece. Divida o máximo prometido pelos meses em que tenciona ter o cartão.

Resumo

  • «Sem anuidade» descreve uma linha do preçário, não o custo do cartão. O emissor recupera a receita na taxa de juro, nas comissões de utilização ou no desenho dos benefícios.
  • A taxa de juro é o sítio mais caro. Um mês com 1.000 € por liquidar à TAN de 18,00% custa cerca de 15 € — mais do que a anuidade anual de muitos cartões que a cobram.
  • «Sem juros» não é «sem custo». Um fracionamento pode não ter juro e ter uma comissão de abertura de 2 € a 34 €, e uma comissão de mora com mínimo pode pesar mais de 8% numa prestação pequena.
  • Um teto mensal apaga a percentagem anunciada. Com um limite de 5 € por mês, 3% de cashback valem 3% até aos 166,67 € de compras e 1% aos 500 €.
  • Um preço fixo é comparável; um zero com variáveis não é. 26 € por ano ou 18,71 € por mês sabem-se antes de assinar; uma TAEG no teto legal só se converte em euros depois de se saber como vai usar o cartão.

Análise atualizada em outubro de 2026 com base nas condições publicadas pelo emissor e nos máximos legais fixados pelo Banco de Portugal.