Antes de assinar um contrato de cartão de crédito, o emissor entrega — ou deve entregar — uma Ficha de Informação Normalizada, a FIN. É um documento de duas ou três páginas, com aspeto de formulário, que quase toda a gente assina sem ler porque parece burocracia. Não é: é o único sítio onde os números que decidem o custo do cartão aparecem todos juntos, no mesmo formato, de emissor para emissor. Esse formato normalizado existe precisamente para que dois cartões diferentes possam ser comparados linha a linha. Este artigo explica os cinco números que valem a pena procurar, e usa cartões reais para mostrar o que cada um significa em euros.

O que é a FIN — e quando ela não existe

A FIN é informação pré-contratual: entrega-se antes da assinatura, não depois, e serve para que o consumidor possa comparar propostas e levar o documento para casa antes de decidir. Num cartão de crédito é onde estão reunidos o custo do dinheiro, o custo fixo do cartão e o custo de correr mal.

Há um caso em que não há FIN de crédito nenhuma, e convém percebê-lo para não a procurar em vão: os cartões pré-pagos. Como não emprestam dinheiro, não há crédito para descrever. O Cartão Pré-Pago Montepio não tem TAN, não tem TAEG, não tem limite de crédito e não tem pagamento mínimo — não porque o banco tenha omitido esses campos, mas porque o produto não os tem. Num pré-pago, o documento a pedir é o preçário e as condições gerais de utilização, onde estão as comissões. Tudo o resto que se segue aplica-se a cartões de crédito.

Número 1 — A TAEG, e o tecto que ela não pode ultrapassar

A TAEG, Taxa Anual de Encargos Efetiva Global, é o número que resume tudo: juros, comissões e outros encargos do crédito, convertidos numa única percentagem anual. É o indicador desenhado para comparar cartões, e é por isso o primeiro a procurar.

Há um limite que ajuda a lê-la. O Banco de Portugal fixa trimestralmente uma TAEG máxima para cada tipo de crédito ao consumo, e no 3.º trimestre de 2026 o tecto dos cartões de crédito é de 18,5%. Nenhum contrato pode ultrapassá-lo. A consequência prática é que uma TAEG colada ao tecto não é um acidente nem uma taxa negociada: é o máximo que a lei permite. O Cartão Gold novobanco e o Cartão Caixa Gold estão ambos nos 18,5% — exatamente no tecto. O Cartão Leroy Merlin Mais fica nos 18,4%, uma décima abaixo.

Isto diz duas coisas. A primeira é que, entre cartões de crédito em Portugal, a margem de diferenciação pela TAEG é estreita: quase todos gravitam à volta do máximo legal. A segunda é que a TAEG só custa dinheiro a quem deixa saldo por pagar. Quem liquida o extrato a 100% todos os meses paga zero de juros, e a TAEG torna-se um número sem efeito prático.

Número 2 — A TAN, e porque quase nunca é igual à TAEG

A TAN, Taxa Anual Nominal, é só a taxa de juro: mede o preço do dinheiro emprestado, sem contar comissões nem impostos. É sempre igual ou inferior à TAEG, e a distância entre as duas mede o peso de tudo o que não são juros.

No Cartão Caixa Gold, a TAN é de 13,30% e a TAEG de 18,5%: mais de cinco pontos de diferença, que vêm dos encargos incorporados no exemplo normalizado. No Cartão Gold novobanco, a TAN é de 14,6% para a mesma TAEG de 18,5%. Comparar dois cartões pelas TAN é comparar apenas os juros; comparar pelas TAEG é comparar o custo real. Se um vendedor lhe apresentar uma taxa isolada e atrativa, a pergunta a fazer é sempre a mesma: «essa é a TAN ou a TAEG?».

Número 3 — O custo fixo, e os 4% que lhe acrescem

O terceiro número não depende de se usar o crédito: paga-se por ter o cartão. Chama-se anuidade ou comissão de disponibilização, e a estes valores acresce sempre Imposto do Selo de 4% — que a publicidade raramente inclui e a FIN inclui.

CartãoCusto fixo publicadoCom Imposto do Selo
Cartão Leroy Merlin Mais (Oney)0€ por ano0€
Cartão Pré-Pago Montepio10€ por ano10,40€
Cartão Gold novobanco25€ por ano26€
Cartão Caixa Gold (CGD)50€ por ano52€

A diferença entre o topo e a base da tabela é de 52€ por ano — mais do que muitos utilizadores gastam em juros num ano inteiro. E há um detalhe que a FIN obriga a confrontar: a isenção. O Gold novobanco é isento para titulares de Conta 360°, +351 ou Golden Key; o Caixa Gold pode sê-lo através de uma solução de conta contratada. Uma isenção condicionada a manter outro produto do banco não é gratuitidade — é uma condição. Se deixar de cumprir a condição, o custo regressa.

Números 4 e 5 — O exemplo representativo e o preço de falhar

O quarto número é o exemplo representativo: um caso concreto, com montante, prazo e taxas, que mostra quanto custa o crédito naquele cartão. É a linha mais informativa da FIN e também a mais mal lida, porque é preciso reparar em que modalidade o exemplo usa.

O Cartão Leroy Merlin Mais ilustra-o bem. O exemplo representativo é de 1.500€ pagos em 12 meses, à TAN de 17,60%, com TAEG de 18,4%. Mas 17,60% é a taxa da Conta Permanente, a modalidade de crédito renovável — a mais cara do cartão. As modalidades a prazo fixo do mesmo cartão têm TAN entre 14,38% e 14,66%. O exemplo não está errado; está a retratar um cenário que o titular pode nunca escolher. Antes de comparar exemplos representativos de dois cartões, confirme que descrevem a mesma forma de pagar.

CartãoCasoTANCusto em juros
Cartão Leroy Merlin Mais (Oney)1.000€ numa modalidade a 12 meses14,38% a 14,66%cerca de 80€
Cartão Gold novobanco1.000€ em 12 prestações14,6%cerca de 95€
Cartão Gold novobanco500€ em 12 prestações14,6%cerca de 48€
Cartão Gold novobanco500€ pagos por inteiro no vencimento—0€

A última linha é a mais importante da tabela: os mesmos 500€, pagos a 100% dentro do prazo, custam zero. Todo o resto da FIN descreve o que acontece a quem não o faz.

O quinto número é o preço de falhar: a comissão de recuperação de valores em dívida. Nos três cartões de crédito citados — de três emissores diferentes — a fórmula é exatamente a mesma: 4% da prestação em atraso, com mínimo de 12€ e máximo de 150€, mais imposto. O mínimo é o que faz a diferença. Numa prestação de 15€, falhar o pagamento custa 12€ de comissão: quase tanto como a própria prestação. Em dívidas pequenas, esta comissão pesa muito mais do que os juros.

Resumo: cinco perguntas antes de assinar

Ler uma FIN não demora cinco minutos se souber o que procurar. Estas são as conclusões práticas.

  1. Procure a TAEG primeiro e compare-a com 18,5%, o tecto do Banco de Portugal para os cartões de crédito no 3.º trimestre de 2026. Quase todos os cartões portugueses estão colados a esse valor.
  2. Nunca compare uma TAN com uma TAEG. A distância entre as duas mede as comissões, e num Caixa Gold essa distância passa dos cinco pontos.
  3. Some sempre 4% de Imposto do Selo ao custo fixo. 50€ de comissão de disponibilização são 52€ na conta, e uma isenção condicionada a manter outro produto do banco não é o mesmo que não pagar.
  4. Verifique a que modalidade se refere o exemplo representativo. Pode estar a retratar a via mais cara do cartão, como acontece no Cartão Leroy Merlin Mais.
  5. Olhe para o mínimo da comissão de atraso, não para a percentagem. Os 12€ mínimos são o que transforma um esquecimento de uma prestação pequena num custo desproporcionado.

E uma última, que resume tudo: pergunte a si próprio se vai pagar o extrato por inteiro todos os meses. Se a resposta for sim, quase nada do que está na FIN lhe vai custar dinheiro, e a decisão passa a ser sobre o custo fixo. Se for não, a FIN é o documento mais importante que vai assinar.

Análise atualizada em setembro de 2026 com base nas condições publicadas pelo emissor e nos máximos legais fixados pelo Banco de Portugal.