Quase toda a gente sabe que usar o cartão no estrangeiro «tem comissões». Quase ninguém sabe quais, porque os preçários não falam de países — falam de zonas e de moedas, e essas duas coisas não coincidem. Pagar 500 € em Estocolmo, em Londres e em Madrid pode dar três resultados diferentes com o mesmo cartão, e dois cartões diferentes na mesma loja de Londres podem produzir uma diferença de quarenta euros. Este artigo explica a arquitetura que está por trás disso e mostra as contas com cartões reais do mercado português.
As três zonas que os preçários usam
O Espaço Económico Europeu — o EEE — é a União Europeia mais a Noruega, a Islândia e o Liechtenstein. É a fronteira que quase todos os preçários portugueses usam, e dentro dela há ainda uma segunda divisão, feita pela moeda. Daí saem três situações.
Zona 1 — dentro do EEE e em euros. Espanha, França, Alemanha, Itália, Irlanda, Países Baixos. Não há conversão de moeda, porque não há moedas a converter. É o cenário mais barato, e na esmagadora maioria dos cartões portugueses uma compra aqui custa exatamente o mesmo que custaria em Lisboa.
Zona 2 — dentro do EEE, mas noutra moeda. Suécia, Dinamarca, Polónia, Chéquia, Hungria, Roménia, Noruega, Islândia. Há conversão cambial, logo há uma taxa de câmbio a aplicar e, em muitos cartões, uma comissão por essa conversão. O que normalmente não há é a comissão adicional que os preçários reservam para operações fora do EEE.
Zona 3 — fora do EEE. Reino Unido, Suíça, Estados Unidos, Brasil, Turquia, Japão, Marrocos, Tailândia. Aqui empilham-se duas ou três parcelas: a conversão cambial, uma comissão de serviço interbancário e, nalguns cartões, um valor fixo por operação.
A armadilha está em que cada emissor escolhe a sua própria regra de corte. Uns cobram por zona geográfica; outros cobram por moeda e ignoram a geografia. O Cartão Caixa Gold da CGD segue a lógica das zonas: nas compras fora do EEE, o preçário prevê 2% de serviço interbancário mais 1% de conversão cambial. Já o N26 Standard segue a lógica da moeda e só nos levantamentos — nas compras, em qualquer moeda, não acrescenta comissão cambial, aplicando a taxa da Mastercard. E o Cartão Pré-pago ActivoBank cobra 3,85% nas transações fora da zona Euro, UE e EEE, ou seja, por zona.
Antes de viajar, a pergunta certa não é «quanto cobra o meu cartão no estrangeiro». É «o meu cartão corta por país ou por moeda, e em que lado desse corte fica o meu destino».
Uma compra de 500 € fora do EEE, cartão a cartão
Fixemos o cenário mais caro — uma compra equivalente a 500 € num país fora do EEE — e apliquemos os preçários que analisámos.
| Cartão | Comissões aplicáveis | Custo da compra de 500 € |
|---|---|---|
| N26 Standard | Sem comissão cambial da N26; taxa de câmbio da Mastercard | 0,00 € |
| Revolut Metal | 0% em moeda estrangeira, câmbios ilimitados (mensalidade de 18,71 €) | 0,00 € |
| Cartão de Crédito Banco CTT | 2% em transações em moeda estrangeira | 10,00 € |
| Cartão Caixa Gold | 2% de serviço interbancário + 1% de conversão cambial | 15,00 € |
| Cartão Pré-pago ActivoBank | 3,85% fora da zona Euro/UE/EEE | 19,25 € |
| Cartão Leroy Merlin+ (Oney) | 4,50% + 3,90 € + 1,70% + 1% de conversão, mais Imposto do Selo | ≈ 41,50 € |
Entre o topo e a base da tabela vão 41,50 € na mesma compra. A linha do Cartão Leroy Merlin+ merece ser lida com atenção porque mostra o efeito do empilhamento: são quatro parcelas somadas — 7,20% no total, mais 3,90 € fixos —, e ainda incide Imposto do Selo de 4% sobre o conjunto das comissões. É um cartão desenhado para obras em Portugal, não para levar na mala.
Um caso à parte: o Cartão de Crédito El Corte Inglés funciona em rede restrita, só nas lojas do grupo. Não há comissão no estrangeiro porque não há compra no estrangeiro — o cartão simplesmente não funciona lá fora. Vale a pena confirmar isto antes de partir com um cartão de loja na carteira a contar que ele sirva para alguma coisa.
Levantar dinheiro custa sempre mais do que pagar
Esta é a regra mais consistente de todas: em qualquer cartão, o mesmo montante sai mais caro pela caixa automática do que pelo terminal de pagamento. Vejamos um levantamento de 200 € fora do EEE.
| Cartão | Comissões aplicáveis | Custo de levantar 200 € |
|---|---|---|
| Revolut Metal | Até 800 € por mês sem comissão | 0,00 € |
| N26 Standard | 1,7% nos levantamentos fora do euro | 3,40 € |
| Cartão de Crédito Banco CTT | 3% do montante, mínimo 3 € | 6,00 € |
| Cartão Leroy Merlin+ (Oney) | 4,50% + 3,90 €, mais Imposto do Selo | ≈ 13,42 € |
| Cartão Caixa Gold | 4,50% + 3,75 € no EEE, acrescendo 2% + 1% fora do EEE | ≈ 18,75 € antes de imposto |
Há ainda dois encargos que nenhuma destas linhas cobre. O primeiro é o operador da caixa automática, que pode cobrar uma comissão própria, independente do banco emissor — a N26 avisa-o expressamente no seu preçário. O segundo só existe nos cartões de crédito, e é o mais caro de todos: nos levantamentos a crédito não há período de graça. No Banco CTT, os juros contam desde a data da operação, e não a partir da data-limite do extrato. Ou seja, aos 6 € de comissão soma-se juro desde o primeiro dia.
Daqui sai uma regra prática que vale em qualquer destino: pague com o cartão sempre que possa e levante o mínimo indispensável, de uma vez em vez de em várias operações pequenas, porque as comissões com componente fixa castigam os levantamentos repetidos.
Cuidado com as campanhas temporárias
Muitos bancos anunciam isenções de comissões no estrangeiro com data de fim, e a diferença entre uma característica permanente e uma promoção é fácil de perder de vista.
O exemplo do momento é o Caixa Gold. A CGD anunciou a devolução das comissões de compras e de levantamentos no estrangeiro — com o adiantamento de numerário abrangido até 1.000 € por mês e por cartão —, mas a campanha tem termo a 30 de setembro de 2026. A partir de 1 de outubro, salvo nova campanha, regressam as comissões de preçário: os 2% mais 1% nas compras e os 4,50% mais 3,75 € nos levantamentos a crédito, com as parcelas adicionais fora do EEE.
A lição é geral, não é sobre a CGD. Antes de escolher o cartão para uma viagem marcada para daqui a três meses, confirme se a isenção que o levou a escolhê-lo ainda estará em vigor na data da viagem. E confirme no extrato, depois da primeira operação, se a devolução foi mesmo aplicada.
Como decidir qual o cartão a levar
Quatro perguntas resolvem a escolha, por esta ordem.
- O destino está dentro ou fora do EEE, e usa euro? Se for dentro do EEE e em euros, quase nenhum cartão português cobra seja o que for e a questão não se põe. As outras duas zonas exigem escolha.
- O meu cartão corta por zona ou por moeda? Um cartão que corta por moeda, como o N26 Standard, é indiferente à geografia: paga o mesmo em Londres e em Varsóvia. Um cartão que corta por zona pode ser barato na Polónia e caro no Reino Unido.
- Vou precisar de numerário? Se sim, o critério muda: o que interessa é a comissão de levantamento e o teto isento mensal, não a comissão de compra. Um cartão com 0% nas compras pode ter uma comissão apreciável nos levantamentos.
- Vale a pena pagar à cabeça? Planos com mensalidade, como o Revolut Metal, trocam a comissão por transação por um custo fixo de 18,71 € por mês. Para quem viaja muito, sai barato; para uma semana de férias por ano, a conta raramente fecha.
E uma última recusa, sempre: quando o terminal ou a caixa automática lhe perguntar se quer pagar em euros em vez da moeda local, diga que não. Essa conversão é feita pelo comerciante à taxa dele, e é quase invariavelmente pior do que a taxa que o seu cartão aplicaria.
Resumo: cinco conclusões práticas
- Os preçários dividem o mundo em três zonas — EEE em euros, EEE noutras moedas e fora do EEE —, mas cada emissor escolhe se corta por geografia ou por moeda. Saiba qual é a regra do seu cartão antes de partir.
- Numa compra de 500 € fora do EEE, os cartões que analisámos vão de 0,00 € a cerca de 41,50 € em comissões. A diferença não está no destino, está no plástico que leva na carteira.
- Levantar dinheiro é sempre mais caro do que pagar — e nos cartões de crédito acresce juro desde a data da operação, porque os adiantamentos não têm período de graça.
- Comissões com parcela fixa penalizam levantamentos pequenos e repetidos. Levante menos vezes e montantes maiores, dentro do teto isento do seu cartão.
- Uma isenção anunciada pode ser uma campanha com data de fim, como a do Caixa Gold que termina a 30 de setembro de 2026. Confirme a validade para as datas da sua viagem, e confirme no extrato depois da primeira operação.
Análise atualizada em setembro de 2026 com base nas condições publicadas pelo emissor e nos máximos legais fixados pelo Banco de Portugal.
