Há duas percentagens em qualquer contrato de cartão de crédito português e quase toda a gente compara a errada. A TAN é a que salta à vista nos anúncios; a TAEG é a que está no exemplo representativo, em letra mais pequena, e é a única que permite comparar dois cartões de verdade. Pior: a TAEG do exemplo representativo não é um número fixo do produto — muda consoante o limite de crédito que o banco lhe atribuir. Este artigo explica o que cada indicador mede, porque é que se afastam um do outro e porque é que o mesmo cartão pode ter quatro TAEG diferentes.

A TAN mede uma coisa só: o preço do dinheiro

A Taxa Anual Nominal é a taxa de juro que o emissor aplica ao saldo que fica por pagar. Nada mais. Não inclui a anuidade, não inclui o Imposto do Selo, não inclui comissões de nenhuma espécie e não inclui seguros. É o preço puro do dinheiro emprestado, em termos anuais.

Por ser um número limpo, a TAN é excelente para uma coisa e péssima para outra. É excelente para calcular juros: se deve 1.000€ a uma TAN de 15%, sabe que o encargo de juros ronda os 150€ ao ano, ou cerca de 12,50€ ao mês enquanto a dívida se mantiver. É péssima para comparar cartões, porque dois cartões com a mesma TAN podem ter custos totais muito distintos consoante o que cobram à parte.

A TAEG mede tudo o que sai do bolso

A Taxa Anual de Encargos Efetiva Global agrega, numa única percentagem anual, tudo o que o crédito custa: os juros, a comissão de disponibilização, o Imposto do Selo, as comissões obrigatórias e quaisquer seguros de subscrição obrigatória. É por isso que a TAEG é quase sempre superior à TAN — e é por isso que a distância entre as duas diz muito sobre a estrutura de custos do cartão.

Dois cartões que já analisámos mostram o efeito melhor do que qualquer explicação teórica.

CartãoTANTAEG no exemplo representativoCusto fixo anualDistância TAN → TAEG
Cartão Universo+ (Universo / Sonae)18,00%18,5%Sem anuidade0,5 pontos percentuais
BK Gold (Bankinter)15,35%18,2% (limite de 3.000€)30€ + Imposto do Selo de 4%2,85 pontos percentuais

Repare no que a tabela faz. O Cartão de Crédito BK Gold do Bankinter tem uma TAN mais baixa — 15,35% contra 18,00% — e ainda assim chega quase ao mesmo sítio na TAEG. A diferença está nos 30€ de anuidade, mais o Imposto do Selo que sobre ela incide, diluídos no exemplo representativo. Já a análise completa do Cartão Universo+ descreve um cartão sem qualquer custo fixo: não havendo anuidade para incorporar, a TAEG fica quase colada à TAN.

Quem comparasse estes dois cartões só pela TAN concluiria que o Bankinter é 2,65 pontos mais barato. Quem comparasse pela TAEG do exemplo representativo veria uma diferença de 0,3 pontos. As duas leituras são aritmeticamente corretas e levam a decisões opostas — e a segunda é a que a lei manda usar.

Porque é que a TAEG muda com o limite (e a TAN não)

Aqui está o mecanismo que dá título a este artigo. A anuidade é um custo fixo: são 30€, quer o cliente tenha 3.000€ de limite, quer tenha 30.000€. A TAEG, sendo uma percentagem, divide esse custo fixo pelo montante de crédito do cenário. Quanto maior o montante, menos pesa a anuidade em termos percentuais — e mais a TAEG se aproxima da TAN.

O Bankinter publica esta escada na Ficha de Informação Normalizada do BK Gold, com reembolso em 12 meses, o que torna o efeito visível a olho nu:

Limite de crédito do cenárioTAEG publicadaTANPeso da anuidade de 30€ sobre o capital
3.000€18,2%15,35%1,00%
5.500€17,1%15,35%0,55%
10.000€16,6%15,35%0,30%
24.500€ ou mais16,1%15,35%0,12%

A coluna da TAN não se mexe: é a mesma taxa de juro em todas as linhas. A coluna da TAEG desce 2,1 pontos percentuais entre a primeira e a última linha, e desce exatamente porque a última coluna desce. É o mesmo cartão, o mesmo contrato e o mesmo preço do dinheiro — muda só o denominador.

Falta dizer a parte contraintuitiva, e é importante: uma TAEG mais baixa não significa pagar menos. No mesmo cartão, o encargo total publicado para um cenário de 3.000€ em 12 meses é de 62,91€; para 30.000€, é de 348,28€. A percentagem caiu, o valor absoluto multiplicou-se por cinco e meio. A TAEG mede o custo por euro de crédito, não o custo da sua vida.

O exemplo representativo é um cenário, não a sua conta

O exemplo representativo é uma simulação normalizada — um montante de crédito concreto, reembolsado num prazo concreto — que existe para que os consumidores possam comparar produtos em pé de igualdade. Não é uma previsão do seu caso. O seu limite será o que o banco lhe atribuir depois da análise de risco, a sua utilização será a que fizer e o seu ritmo de reembolso será o seu.

Daí a pergunta que vale a pena fazer antes de assinar, e que quase ninguém faz: em que patamar de TAEG é que este limite me coloca? Num cartão com escada publicada, saber que lhe foi atribuído um limite de 3.000€ e não de 10.000€ é saber que a sua TAEG é 18,2% e não 16,6%.

Há ainda uma linha de custo que entra na TAEG e nunca aparece na TAN: o Imposto do Selo sobre a utilização do crédito. No BK Gold, o banco discrimina-o — 0,141% por mês sobre o saldo utilizado. Quem tiver 1.000€ em dívida durante um mês paga 1,41€ só deste imposto, à margem dos juros. É pouco isoladamente e é constante ao longo do ano.

Convém reter, por fim, o enquadramento legal: o teto fixado pelo Banco de Portugal — 18,5% para os cartões de crédito no 3.º trimestre de 2026 — aplica-se à TAEG, não à TAN. Um cartão pode perfeitamente ter uma TAN baixa e uma TAEG encostada ao máximo legal, se cobrar custos fixos elevados. O contrário também acontece.

Onde não há TAN nem TAEG nenhuma

Nos cartões pré-pagos e de débito, estes dois indicadores simplesmente não existem — não há crédito concedido, logo não há preço do dinheiro para medir. O plano descrito na nossa análise do cartão Revolut Standard é o exemplo mais conhecido em Portugal: o titular gasta o saldo que carregou, e ponto final.

Isto tem uma consequência prática para quem compara cartões em tabelas: procurar a TAEG de um pré-pago é procurar um campo que não existe, e encontrar um zero nesse campo quase nunca significa «taxa zero» — significa «não aplicável». Nestes produtos, a comparação faz-se por outra via: mensalidade, comissões de levantamento, limites de câmbio isento e custo de substituição do cartão.

Resumo: o que levar daqui

  • A TAN é para calcular juros; a TAEG é para comparar cartões. Usar a TAN numa comparação esconde exatamente os custos que o emissor não quer que some.
  • A distância entre as duas revela a estrutura de custos. Diferença pequena indica pouco custo fixo; diferença grande indica anuidade, impostos ou seguros obrigatórios com peso.
  • A TAEG do exemplo representativo depende do limite. No mesmo cartão, pode variar dois pontos percentuais entre o patamar mais baixo e o mais alto, sem que a TAN mude um milímetro.
  • TAEG mais baixa não é conta mais baixa. Mede custo por euro de crédito; um limite maior costuma trazer TAEG menor e encargo absoluto muito maior.
  • Pergunte em que patamar ficou. Depois da decisão de crédito, confirme a TAEG associada ao limite que lhe atribuíram — é essa, e não a do anúncio, que passa a ser a sua.

Análise atualizada em setembro de 2026 com base nas condições publicadas pelo emissor e nos máximos legais fixados pelo Banco de Portugal.